É comum que o luto migratório seja ignorado no momento em que a decisão de morar fora é tomada, já que toda a atenção se volta para a logística, como vistos, passagens e a idealização de uma vida melhor. Consequentemente, o imaginário coletivo permanece dominado por histórias de sucesso e paisagens turísticas. No entanto, existe um lado que raramente aparece no feed do Instagram: o sentimento difuso e persistente de perda que, silenciosamente, acompanha até mesmo os imigrantes mais bem-sucedidos.
Para os mais de 4,9 milhões de brasileiros vivendo no exterior, essa sensação tem nome, sobrenome e validação clínica, embora seja socialmente silenciada: Luto Migratório.
Diferente do choque cultural — que é uma reação aguda e passageira às novidades —, o luto migratório é um processo estrutural de reorganização da identidade psíquica. Ele não acontece porque “algo deu errado” na sua mudança, mas sim porque a mudança em si exige o rompimento de vínculos profundos. Entender esse processo é o primeiro passo para não transformar a saudade em patologia.
Este artigo explora as nuances desse luto, diferenciando-o da depressão, e apresenta como a psicoterapia especializada pode ser o divisor de águas na sua qualidade de vida longe de casa.
O Que é, Afinal, o Luto Migratório?
O renomado psiquiatra Joseba Achotegui, referência mundial em migração e saúde mental, define o luto migratório como uma perda ambígua. Diferente do luto por morte, onde há um ritual de despedida e uma irreversibilidade clara, o luto do imigrante é:
- Parcial: O objeto da perda (o país de origem, a família, os amigos) continua existindo e “vivendo” sem você.
- Recorrente: A dor pode ser reativada a qualquer momento — numa ligação de vídeo que trava, no Natal longe de casa, ou ao ouvir uma música antiga.
- Múltiplo: Não se perde apenas “o lugar”, perdem-se status, códigos culturais e facilidades de comunicação.
Na prática clínica do Espaço Elleve, observamos que muitos brasileiros confundem esse luto com fraqueza ou ingratidão. Pensamentos automáticos como “Eu escolhi vir, não tenho o direito de reclamar” são frequentes e perigosos, pois bloqueiam o processamento emocional necessário para a adaptação.
Os 7 Duelos da Migração: Decompondo a Dor
Para lidar com o sofrimento, é preciso nomeá-lo. Achotegui categoriza o luto migratório em 7 áreas fundamentais de perda, conhecidas como os “7 Duelos da Migração”. Identificar qual deles está mais ativo em você é crucial para o tratamento:
1. A Família e os Amigos
A perda não é apenas da presença física, mas da participação nos rituais do cotidiano. Perde-se o almoço de domingo, o crescimento dos sobrinhos e o “ombro amigo” disponível sem agendamento prévio. A tecnologia aproxima, mas não substitui o toque e a convivência espontânea.
2. A Língua Materna
Mesmo que você seja fluente no idioma local, falar uma segunda língua (L2) exige um esforço cognitivo constante e consciente. Perde-se a espontaneidade, o humor rápido, as gírias e a capacidade de expressar nuances emocionais com precisão. Isso pode gerar uma sensação de “emburrecimento” ou de perda de personalidade.
3. A Cultura
São os códigos invisíveis: como cumprimentar, como fazer piada, o que é considerado educação ou rudeza. A perda da cultura gera uma sensação de desamparo, pois o imigrante deixa de saber “como o mundo funciona” ao seu redor.
4. A Terra e a Paisagem
Este é um luto sensorial. A falta da luz solar específica do Brasil, das cores vibrantes, da vegetação, dos cheiros e até da temperatura afeta o ciclo circadiano e o humor. A “solastalgia” (angústia causada pela mudança ambiental) é real e impacta a regulação emocional.
5. O Status Social
Muitos imigrantes experimentam uma “descida” temporária ou permanente de status. O advogado no Brasil vira motorista de aplicativo; a dentista vira au pair. Além da perda financeira, há a perda da identidade profissional e do reconhecimento social, o que golpeia a autoestima.
6. O Grupo de Pertença
A sensação de ser um “estrangeiro”, o “outro”. De não compartilhar a história coletiva, as referências de infância e os traumas políticos do novo país. Isso gera isolamento e a formação de guetos.
7. Os Riscos Físicos
Em alguns casos, a migração envolve insegurança jurídica (medo da deportação), exposição a ambientes de trabalho precários ou moradias insalubres, ativando um estado de alerta constante.
Síndrome de Ulises: Quando o Estresse Vira Doença
Se esses lutos não forem elaborados e se somarem a condições adversas (como isolamento extremo ou falha no projeto migratório), o quadro pode evoluir para a Síndrome de Ulises (ou Síndrome do Imigrante com Estresse Crônico e Múltiplo).
Este não é um transtorno mental clássico, mas um quadro reativo de estresse limite. O sistema nervoso do imigrante entra em “modo de sobrevivência” permanente e não consegue desligar.
Sintomas de Alerta:
- Área Cognitiva: Falhas de memória, desatenção, confusão temporal.
- Área Emocional: Tristeza profunda, choro fácil, irritabilidade explosiva.
- Área Fisiológica: Insônia severa, dores de cabeça tensionais, fadiga crônica, problemas gástricos (somatização).
Diferente da depressão, onde há apatia, na Síndrome de Ulises há uma tensão excessiva. O imigrante quer fazer coisas, mas está exaurido pela luta diária.
Abordagens Terapêuticas: O Caminho da Reconstrução
No tratamento do luto migratório, não buscamos “curar” a saudade — pois a saudade é o amor que fica —, mas sim expandir a vida ao redor dela. Utilizamos abordagens baseadas em evidências que respeitam a complexidade cultural do paciente.
Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT): Acolhendo o “Hóspede Indesejado”
A ACT é revolucionária para o luto migratório porque quebra a lógica do “controle”. Muitos imigrantes tentam controlar a tristeza ignorando-a ou racionalizando-a (“Não posso chorar, tenho que ser forte”).
Na ACT, usamos a metáfora do “Hóspede Indesejado”: Imagine que você deu uma festa (sua vida no exterior) e convidou todos os seus sonhos e alegrias. De repente, aparece um vizinho chato e mal-humorado (a tristeza/saudade). Você tem duas opções:
- Passar a festa inteira na porta tentando expulsá-lo (e perder a festa).
- Deixá-lo entrar, sentar num canto, e continuar dançando e conversando com os outros convidados.
O objetivo é a Aceitação Radical: permitir que a dor exista sem que ela te paralise. Trabalhamos para identificar seus Valores: Por que valeu a pena vir? O que você quer construir? Quando conectamos a dor ao propósito, o sofrimento se torna suportável e cheio de sentido.
Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC): Reestruturando a Identidade
A TCC atua na identificação das distorções cognitivas que o luto migratório exacerba:
- Visão em Túnel: Focar apenas no que é negativo no novo país e apenas no que era “perfeito” no Brasil (idealização do passado).
- Catastrofização: “Se eu voltar, serei um fracassado.”
- Rotulação: “Sou um peixe fora d’água.”
Através da reestruturação cognitiva, ajudamos o paciente a desenvolver uma visão mais realista e integrada. O objetivo é construir uma identidade bicultural ou híbrida. Você não deixa de ser brasileiro para se adaptar à Alemanha ou aos EUA. Você se torna um “sujeito ampliado”, capaz de transitar entre dois mundos.
A Importância da Validação (Abordagem Centrada na Pessoa)
Muitas vezes, o imigrante só precisa de um espaço seguro para dizer: “Está muito difícil e eu estou com medo”, sem ouvir de volta um julgamento ou um conselho simplista como “mas pensa em quanto você ganha em dólar”. A escuta empática valida a dor e retira o peso da culpa, permitindo que o processo natural de cura ocorra.
Fases da Adaptação Cultural: Onde Você Está?
Entender que o que você sente faz parte de um processo previsível traz alívio. A teoria da “Curva em U” da adaptação cultural descreve estágios comuns:
- Lua de Mel (Honeymoon): Tudo é novo e excitante. O foco está nas oportunidades. O Brasil parece distante e problemático.
- Choque Cultural/Crise: A novidade passa. Começam as dificuldades com a língua, burocracia e solidão. O luto migratório atinge o pico. É aqui que a maioria busca terapia.
- Ajuste (Recovery): Você começa a entender como as coisas funcionam. Cria rotinas, faz os primeiros amigos locais, entende o humor. A tristeza diminui.
- Adaptação/Biculturalismo: Você se sente confortável. Consegue criticar e elogiar tanto o novo país quanto o Brasil de forma equilibrada. A saudade vira nostalgia, não mais dor.
Estratégias Práticas para Lidar com o Luto Migratório
Se você sente que está “preso” na fase de crise, tente estas intervenções comportamentais:
- Rituais de Ancoragem (O “Cantinho do Brasil”)
A ansiedade do imigrante vem da falta de “chão”. Dessa forma, você pode criar um espaço físico na sua casa que seja território brasileiro. Pode ter uma bandeira, fotos, livros em português, ou um estoque de comida típica. Dessa forma, quando o mundo lá fora for hostil, esse é seu bunker de segurança emocional. Visite-o, recarregue e saia.
- A Técnica da “Ponte de Valores”
Quando a saudade bater forte e vier o pensamento de desistir, faça o exercício da Ponte:
Escreva num papel: O que eu valorizo? (Ex: Coragem, Liberdade, Segurança para meus filhos).
Pergunte-se: A minha dor de hoje está a serviço desses valores?
Geralmente, a resposta é sim. A dor da saudade é o preço da coragem de buscar uma vida melhor. Validar isso dá dignidade ao sofrimento. - Dieta de Informação e Redes Sociais
Cuidado com o “Brasil digital”. Pois passar o dia inteiro conectado às notícias e grupos de WhatsApp do Brasil impede que você esteja presente no seu “aqui e agora”. portanto, estabeleça horários para conectar-se com o Brasil e horários para viver a sua cidade atual. Pois o cérebro precisa de inputs locais para criar novas conexões neurais de pertencimento.
- Construa sua “Família Escolhida”
Não caia no isolamento e nem no gueto (só andar com brasileiros). Busque grupos de interesse (esportes, hobbies, voluntariado) onde a língua seja o meio, não o fim. Portanto, conectar-se com pessoas através de interesses comuns ajuda a superar a barreira cultural
FAQ – Sobre Luto Migratório
Não falamos em “cura” porque não é uma doença, mas em resolução. Dessa forma, o luto é resolvido quando você consegue lembrar do Brasil com carinho, mas sem a dor paralisante. Sendo assim, você consegue investir energia afetiva na sua vida atual.
Sim, é uma fase comum do luto (fase de resistência). Pois a raiva é uma defesa contra a dor da rejeição ou da dificuldade. Portanto na terapia, trabalhamos para que essa raiva não se torne amargura crônica (xenofobia reversa).
Nem sempre. Existe o “Choque Cultural Reverso”. Quem volta não é a mesma pessoa que partiu, e o Brasil também mudou. Muitas vezes, o retorno precipitado gera um novo luto (pela vida que se abandonou no exterior). Dessa forma, a decisão de retorno deve ser trabalhada terapeuticamente para não ser uma fuga, mas uma escolha consciente.
Sim, e sofrem muito. Elas perdem a escola, os primos, os avós e a referência de segurança. dessa forma, eles podem manifestar com regressão (voltar a fazer xixi na cama), agressividade ou queda no rendimento escolar. Portanto é fundamental validar a tristeza da criança e não forçá-la a “estar feliz” pela mudança dos pais.
Conclusão sobre o Luto Migratório
Viver fora é viver na fronteira entre dois mundos. dessa forma, o luto migratório é o pedágio emocional dessa travessia. Visto que ele dói porque reflete o tamanho do amor que temos pelas nossas raízes. Mas ele não precisa ser uma âncora que te prende ao passado.
Com o suporte adequado, é possível transformar esse luto em adubo para o seu crescimento. A terapia online oferece esse espaço de acolhimento na sua língua materna, portanto, ajuda você a honrar sua história enquanto escreve, com coragem, os novos capítulos da sua vida.
Referências de Luto Migratório
- O que é a síndrome de Ulisses, que afeta os migrantes – BBC News Brasil / Entrevista Dr. Joseba Achotegui
- Los siete duelos del migrante: claves para apoyar – Mercedes Valladares, Psicologia Intercultural
- Comunidade Brasileira no Exterior: Dados 2024 – Ministério das Relações Exteriores
- População de brasileiros no exterior cresce 814% – Thiago Chiapetti / Dados Oficiais
- Síndrome de Ulisses: Estresse Múltiplo e Crônico – La Língua Psicologia
- O Processo de Adaptação e Suas Fases (Curva em U) – ABRISA (Associação Brasileira para Integração Social na Austrália)
- ACT Therapy for Trauma and Immigration – Next Mission Recovery
- TCC no Luto Complicado: Técnicas e Protocolos – Instituto de Terapia Cognitiva
- Luto Migratório: Compreender a dor emocional – Clínica Tear

















