Culpa Materna: Como Lidar com a Maternidade Real sem se Anular

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Livia Barcelos

Livia Barcelos é psicóloga clínica formada pelo UNIAENE (2014), com especialização em Terapia Cognitivo Comportamental pela PUC – Rio Grande do Sul, e mais de 10 anos de experiência em atendimento psicológico presencial e online.​

A maternidade idealizada — aquela perfeita e sem falhas que vemos nas redes sociais — é um mito que adoece. Pesquisas mostram que mais de 96% das mães brasileiras sentem culpa por não corresponderem a esse padrão inalcançável, o que gera exaustão, isolamento e até depressão pós-parto. Este artigo explora as raízes desse sofrimento e apresenta caminhos práticos da psicologia (como a autocompaixão e a aceitação da ambivalência) para que você possa reduzir o julgamento interno, lidar com a realidade da maternidade e se reconectar com seus valores — sem precisar ser perfeita.

Sumário

A culpa materna ganha força justamente quando a maternidade idealizada — de mãe sempre calma, plena e disponível — se choca com a vida real. Na prática, esse modelo, reforçado por redes sociais e expectativas culturais, alimenta a culpa, a exaustão e o isolamento emocional de milhares de mulheres. Não por acaso, pesquisas recentes mostram que mais de 96% das mães brasileiras convivem com culpa com alguma frequência, e grande parte sente que está sempre devendo em relação aos filhos e a si mesmas. Além disso, cerca de 25% das mães desenvolvem sintomas de depressão pós-parto no Brasil, muitas vezes associados ao conflito entre a maternidade real e o ideal imposto pela cultura. Ainda assim, há espaço para esperança: a terapia psicológica baseada em evidências oferece caminhos concretos para reduzir o julgamento interno, fortalecer a autocompaixão e reconectar a mãe com seus próprios valores — sem exigir perfeição.

Por que a maternidade real dói tanto quando tudo parece “dar certo”?

Frequentemente, a maternidade é apresentada como o auge da realização feminina: um misto de gratidão, plenitude e propósito. Na prática, porém, logo nos primeiros meses, muitas mães percebem que a experiência está longe do roteiro perfeito. Há noites mal dormidas, choro, irritação, sensação de solidão e, muitas vezes, pensamentos que parecem “proibidos”, como “não era para ser tão difícil assim”.

Nesse contexto, estudos com milhares de mulheres brasileiras mostram que a culpa não é exceção, mas quase regra. Uma pesquisa recente sobre maternidade contemporânea identificou que mais de 96% das mães relatam sentir culpa com alguma regularidade, e que esse sentimento está diretamente ligado à sobrecarga, à autocrítica e à sensação de não dar conta de tudo. Além disso, outro levantamento com 5.643 mães encontrou níveis elevados de culpa e inadequação em relação ao cuidado com os filhos, sugerindo o peso dos padrões irreais de “boa maternidade”.

Quando esses ideais colidem com a realidade de noites em claro, retorno ao trabalho, falta de rede de apoio e cobranças externas, a mãe passa a acreditar que o problema está nela — e não no modelo impossível que tenta sustentar. É justamente nesse ponto que a culpa materna se instala. Para saber mais sobre a culpa materna, confira o artigo a Culpa Materna Pós-Parto: Como Lidar e Superar.

A maternidade idealizada: um mito que adoece

Antes de falar de culpa, é importante olhar para o cenário que a produz. A idealização da maternidade é um construto social: não nasce com a mulher, é aprendido.

Nesse sentido, estudos em psicologia mostram que o ideal da “mãe exclusiva”, sempre disponível, instintivamente amorosa e realizada apenas com o papel materno, está diretamente associado ao aumento de depressão pós-parto e sofrimento psíquico. Quando a mulher acredita que deveria encontrar satisfação absoluta na maternidade, qualquer ambivalência (amar o filho e, ao mesmo tempo, sentir cansaço ou frustração) é vivida como falha moral.

Somado a isso, o ambiente digital amplifica essa idealização. Pesquisas sobre a influência das redes sociais apontam que a exposição constante a imagens de uma maternidade “perfeita” aumenta sentimentos de inadequação, culpa e tristeza em mães recentes. Nessas plataformas, costumam aparecer:

  • casas organizadas;
  • bebês sorridentes;
  • mães sempre arrumadas;
  • rotinas impecáveis.

O que quase nunca aparece são as noites em claro, as dúvidas, as discussões com o parceiro, as crises de choro no banho. Dessa forma, estabelece-se uma comparação injusta: a mãe real, cansada e ambivalente, se mede por um recorte altamente editado da maternidade alheia.

Não por acaso, especialistas falam em uma verdadeira “síndrome da maternidade moderna”, marcada por sobrecarga emocional, excesso de responsabilidades, falta de apoio e um padrão permanente de autocrítica. Em um estudo recente, mais de 96% das mães relataram sentir culpa com frequência, e 92,3% apontaram a perda de paciência com os filhos como principal gatilho dessa culpa.

Culpa materna: o sentimento que não te deixa em paz

Culpa é uma emoção moral: surge quando acreditamos ter violado uma regra importante, ainda que essa regra seja construída socialmente. No caso da mãe, essa “regra” costuma ser algo como:

  • “Mãe boa não perde a paciência.”
  • “Mãe de verdade não sente vontade de ficar longe do filho.”
  • “Se eu reclamo, sou ingrata.”

Do ponto de vista psicológico, a culpa materna tende a ser vaga e constante. Muitas vezes, não há um erro objetivo, mas uma sensação difusa de estar sempre devendo. Estudos apontam que essa culpa persistente está associada à sensação de incompetência, vergonha e autocobrança extrema, podendo comprometer o vínculo com o bebê e a capacidade de a mãe se cuidar.​

Alguns sinais de que a culpa já passou do saudável e está te adoecendo:

  • pensamento frequente de “sou uma péssima mãe”;
  • dificuldade de aproveitar momentos de descanso por sentir que deveria estar fazendo algo pelo filho;
  • revisão mental constante de pequenas falhas do dia (um grito, uma resposta atravessada, uma mamadeira a mais);
  • sensação de que qualquer escolha (amamentar, não amamentar, voltar ao trabalho, ficar em casa) é sempre a errada.

Quando a culpa toma essa forma rígida, ela deixa de ser um sinal útil de ajuste e se torna um mecanismo de autoataque. Em vez de estimular reparação, paralisa.

Sentimentos “proibidos”: ambivalência, exaustão e arrependimento

Outro fator que alimenta a culpa é a crença de que mãe que ama de verdade não sente ambivalência. Na prática, a experiência emocional da maternidade é muito mais complexa.

Pesquisas brasileiras sobre depressão pós-parto mostram que a discrepância entre a maternidade idealizada e a vivida — cheia de contradições — é um dos elementos centrais no sofrimento psíquico no pós-parto. Muitas mulheres relatam emoções como:​

  • amor intenso pelo bebê e, ao mesmo tempo, vontade de “fugir por algumas horas”;
  • alegria por ver o filho saudável e, ao mesmo tempo, luto pela vida que tinham antes;
  • orgulho do papel de mãe e, ao mesmo tempo, saudade da própria individualidade.

Atualmente, estudos recentes indicam que cerca de 25% das mães brasileiras apresentam sintomas de depressão pós-parto. Entre os principais fatores associados estão a sobrecarga, a ausência de rede de apoio, a maternidade compulsória e a pressão para corresponder a padrões idealizados. Nessa combinação, a tristeza, o cansaço extremo, a dificuldade de se vincular ao bebê e o sentimento de inutilidade muitas vezes caminham junto com uma culpa esmagadora.

Por isso, reconhecer que ambivalência não é desamor — é condição humana — é um passo essencial para aliviar a culpa. Em outras palavras, o problema não é sentir raiva, cansaço ou vontade de estar só. O verdadeiro problema é acreditar que esses sentimentos te transformam automaticamente em uma “má mãe”.

Como a terapia ajuda a atravessar a culpa sem se perder de si

Atualmente, abordagens terapêuticas contemporâneas têm mostrado resultados importantes no tratamento de culpa crônica, autocrítica e sofrimento ligado à maternidade. Em especial, destacam-se intervenções que combinam:

  • aceitação de emoções difíceis;
  • questionamento de pensamentos automáticos;
  • reconexão com valores pessoais;
  • autocompaixão.

De fato, estudos com intervenções online baseadas nesses princípios mostram melhora significativa em sintomas de ansiedade, depressão e sofrimento emocional, inclusive em contextos de luto e transições de vida intensas. Quando adaptados à maternidade, esses recursos ajudam a:

  1. Sair do modo “juíza implacável” e voltar a ser protagonista da própria história.
  2. Diferenciar o que é exigência externa do que é valor genuíno.
  3. Construir uma maternidade possível, não perfeita.

Além disso, a terapia psicológica oferece um espaço protegido onde a mãe pode dizer, sem medo de julgamento: “Estou exausta”“Sinto saudade da minha antiga vida” ou “Às vezes, eu não gosto de ser mãe”. Afinal, escutar isso com acolhimento — e não com choque — já é, por si só, profundamente terapêutico.

Maternidade e autocompaixão: você não precisa ser sua pior inimiga

Um dos antídotos mais poderosos contra a culpa materna crônica é a autocompaixão. Ao contrário do que muitas pensam, ser autocompassiva não é “passar a mão na cabeça” ou ser negligente. Pelo contrário, é tratar a si mesma com a mesma gentileza que você ofereceria a uma amiga querida na mesma situação.

Cada vez mais, pesquisas em saúde mental mostram que a ausência de autocompaixão deixa as mães presas em ciclos de julgamento e impotência, aumentando o risco de depressão e prejudicando o vínculo com os filhos. Nessas condições, quando a mãe se enxerga apenas pelo filtro do erro, ela perde a capacidade de avaliar o contexto mais amplo: falta de sono, sobrecarga, falta de apoio, histórico de violência obstétrica, entre outros fatores que também explicam seu limite.

Trabalhar autocompaixão na terapia significa:

  • reconhecer a dor sem minimizar;
  • lembrar que outras mães também erram e sofrem;
  • falar consigo mesma de forma menos cruel.

Frases internas como “Eu sou um fracasso” vão sendo substituídas por algo como: “Hoje eu ultrapassei meus limites. Isso não me faz uma péssima mãe, me mostra que eu também preciso de cuidado.”

Como fazer na prática: 5 exercícios para aliviar a culpa materna

A seguir, algumas práticas simples que podem ser incorporadas à rotina. Elas não substituem terapia, mas ajudam a reorganizar o olhar sobre si mesma.

1. Diário da mãe real

Reserve alguns minutos à noite para responder a três perguntas:

  1. O que deu certo hoje na maternidade?
  2. Onde eu senti que “falhei”?
  3. O que estava acontecendo comigo (cansaço, dor, preocupação) naquele momento?

Essa última pergunta é crucial, pois ela te ajuda a contextualizar o comportamento, em vez de reduzi-lo a um rótulo automático como “sou horrível”. Com o tempo, você perceberá que muitos episódios de culpa surgem, na verdade, em dias de sobrecarga extrema.

2. Troque o “sou uma má mãe” por “estou sobrecarregada”

Na próxima vez que pensar “sou uma péssima mãe”, experimente, conscientemente, reformular para:

“Hoje eu estou sobrecarregada e reagi como consegui. Isso não define quem eu sou.”

Essa substituição simples tira o rótulo da identidade (“sou”) e o coloca no estado momentâneo (“estou”), abrindo espaço para mudança. Nesse sentido, abordagens cognitivo-comportamentais mostram que nomear assim diminui o peso da culpa e, ao mesmo tempo, aumenta a sensação de possibilidade de reparação.

3. Identifique a voz da cultura

Quando vier um pensamento do tipo “mãe boa não faz X”, pergunte-se:

  • Essa frase veio de onde? Família? Redes sociais? Religião? Cultura?
  • Eu, como pessoa, realmente concordo com ela?
  • Ela está alinhada com os meus valores ou apenas com um padrão externo?

Você pode até escrever ao lado: “Voz da cultura”. Afinal, separar a sua voz da voz das expectativas sociais é um passo fundamental para reduzir a culpa injusta.

4. Prática breve de autocompaixão

Em um momento de culpa intensa:

  1. Pare, respire fundo três vezes.
  2. Coloque a mão no peito ou no rosto, num gesto de cuidado.
  3. Diga mentalmente:
    • “Outras mães também passam por isso.”
    • “Estou sofrendo agora, e isso merece cuidado, não ataque.”

Comprovadamente, essa prática, inspirada em protocolos de autocompaixão e regulação emocional, ajuda a acalmar o sistema nervoso e, consequentemente, reduz o impulso de se punir.

5. Reencontre a mulher para além da mãe

Ao menos uma vez por semana, planeje conscientemente uma pequena ação que responda à pergunta: “O que a mulher que existe em mim sente falta?”.

Pode ser:

  • tomar um café sozinha em silêncio;
  • retomar uma leitura;
  • caminhar sem criança;
  • encontrar uma amiga.

Esses momentos não são egoísmo; são manutenção de saúde mental. De fato, pesquisas mostram que o autocuidado materno adequado reduz sintomas de depressão e melhora a qualidade do vínculo com os filhos.

8. Quando é hora de buscar terapia?

Nem toda culpa materna exige acompanhamento psicológico. No entanto, é importante acender o alerta quando:

  • a culpa te impede de dormir ou descansar;
  • você sente pouca ou nenhuma alegria na rotina com o bebê;
  • pensamentos de inutilidade, fracasso ou vontade de sumir aparecem com frequência;
  • há dificuldade persistente em se vincular ao filho;
  • outras pessoas já perceberam que você “não é mais a mesma”.

No Brasil, estudos indicam que a depressão pós-parto atinge cerca de 25% das mães e pode se manifestar entre 6 e 18 meses após o parto. Por reconhecer essa vulnerabilidade, a Lei nº 14.721/2023 incluiu a assistência psicológica a gestantes e puérperas como parte do cuidado integral à saúde da mulher no SUS. Ou seja, não é exagero procurar ajuda; é um direito.​

A psicoterapia online, oferecida por equipes especializadas em saúde mental e maternidade, tem se mostrado uma alternativa eficaz, acessível e acolhedora. Plataformas estruturadas como o Espaço Elleve seguem as normas do Conselho Federal de Psicologia, oferecendo atendimento seguro, sigiloso e adaptado à rotina da mãe, inclusive para quem está no puerpério ou conciliando trabalho e maternidade.​

FAQ – Perguntas frequentes sobre culpa materna

1. Sentir raiva ou vontade de ficar longe do meu filho me torna uma má mãe?

Não. Na realidade, emoções como raiva, frustração e vontade de estar só são respostas humanas à sobrecarga, principalmente quando há sono insuficiente, falta de apoio e muita demanda. O que faz diferença é o que você faz com essas emoções. Por isso, reconhecê-las, pedir ajuda e ajustar a rotina é muito mais saudável do que fingir que elas não existem.

2. Culpa materna é sempre um problema psicológico?

Nem sempre. Em muitos casos, uma dose de culpa pode ser sinal de responsabilidade afetiva. O problema começa quando ela se torna constante, vaga, desproporcional ao contexto e se transforma em autodepreciação (“sou horrível”“meus filhos seriam melhores sem mim”). Quando isso acontece, a culpa deixa de ser um alerta saudável e passa a ser um ataque interno — e, nesses casos, vale buscar ajuda profissional.

3. Redes sociais pioram a culpa?

Atualmente, diversos estudos apontam que a exposição a conteúdos idealizados de maternidade aumenta sentimentos de inadequação e ansiedade em mães recentes, especialmente quando há comparação constante com “mães perfeitas” e influenciadoras. Por isso, regular o tempo de uso e seguir perfis que falem de maternidade real, com vulnerabilidade e contexto, pode ser uma estratégia importante para aliviar a pressão e reduzir a culpa.

4. A terapia online funciona para mães exaustas e sem tempo?

Sim. Hoje, pesquisas apontam que intervenções psicológicas online, quando bem estruturadas, como a do Espaço Elleve, têm eficácia comparável à presencial para uma série de quadros, incluindo depressão leve a moderada, ansiedade e dificuldades de adaptação. Nesse contexto, para mães sobrecarregadas, a possibilidade de fazer terapia sem deslocamento, em casa, acaba se tornando um diferencial importante.

Conclusão para Culpa Materna

A culpa materna não é um defeito de caráter, mas um sintoma de um modelo de maternidade inalcançável, alimentado por pressões culturais, falta de políticas públicas e uma idealização intensa do papel da mãe. Reconhecer isso e olhar para o fenômeno com seriedade — e não com frases prontas como “toda mãe é assim mesmo” — é um ato de cuidado consigo e com as crianças que você cria.

Por isso, ao nomear a maternidade idealizada, validar a ambivalência, praticar autocompaixão e, quando necessário, buscar apoio psicológico qualificado, você não apenas se protege, como oferece aos seus filhos algo muito mais valioso do que perfeição: uma mãe humana, presente e possível.

Dessa forma, aqui no Espaço Elleve trabalhados com muita seriedade, a fim de fazer com que a experiência materna, seja algo leve e realizador.

Referencias de Culpa Materna

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